Até pouco tempo, participar do programa de Resposta da Demanda (RD) era privilégio de poucos: o mecanismo que remunera quem reduz consumo elétrico durante o horário de pico — das 18h às 22h — exigia volumes de carga que só grandes conglomerados industriais conseguiam oferecer isoladamente. Essa barreira de entrada começou a ceder.
A Axia Energia viabilizou um modelo inédito de agregação que junta cargas de diferentes consumidores do mercado livre, mesmo quando nenhum deles teria volume suficiente para participar sozinho. Na estreia, a empresa consolidou três propostas somando 15 MW, com preço de até R$ 991/MWh, em uma estratégia que já recebeu validação do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) — um aval técnico decisivo para quem ainda testava esse tipo de arranjo.
O que torna o modelo replicável é a camada de tecnologia por trás dele: uma plataforma com inteligência artificial proprietária calcula o volume, o horário e o preço ótimos para cada operação, além de projetar o ganho financeiro de cada participante. Na prática, o algoritmo faz o trabalho de orquestração que antes exigiria uma equipe dedicada de trading de energia — e é isso que viabiliza economicamente agregar cargas pequenas e dispersas.
A Resposta da Demanda foi regulamentada pela ANEEL em 2022 e remunera quem topa reduzir consumo voluntariamente nos horários de maior estresse do sistema. Mesmo com o mecanismo maduro, a adesão sempre foi limitada pelo tamanho mínimo de carga — e é exatamente esse gargalo que a agregação ataca. A EPE estima um mercado potencial de 8,8 GW para a modalidade, hoje ainda pouco explorado.
Para o ecossistema de inovação em energia, o episódio aponta para uma nova figura de mercado: o agregador. Quem souber organizar a flexibilidade de muitos consumidores pequenos — com software de otimização, medição e liquidação financeira — passa a ter acesso a uma receita que antes só existia para quem já era grande. É terreno natural para energytechs e ESCOs que trabalham com gestão de carga e inteligência artificial aplicada a dados de consumo, e um convite a investidores e grandes empresas para observar de perto quem está construindo essa camada de inteligência.
Vale notar que a validação do ONS e o preço já contratado indicam que o mercado reconhece valor econômico nessa flexibilidade agregada — não é só um piloto técnico, é uma operação comercial em funcionamento. Se o modelo se replicar, os 8,8 GW estimados pela EPE deixam de ser projeção e passam a ser disputa real por quem construir a melhor plataforma de agregação primeiro.
Portal Energia Limpa — 20/10/2026