Para financiar a próxima fase de expansão sem recorrer a dívida tradicional nem abrir mão de uma fração do comando societário, a Eneva encontrou uma rota alternativa no mercado de capitais: vender participação econômica, não participação de voto. A operação fechada com o Itaú Unibanco é um retrato de como bancos e geradoras vêm desenhando instrumentos híbridos para bancar a infraestrutura pesada da transição energética brasileira.

A companhia concluiu, em 15 de outubro, a captação de R$ 1,777 bilhão por meio da subscrição, pelo Itaú Unibanco, de novas ações preferenciais com voto restrito emitidas pela Eneva Participações III (Eneva III), subsidiária integral da Eneva. Na prática, o banco passa a deter as preferenciais da Eneva III — com direito a remuneração, mas sem poder de voto pleno —, enquanto a Eneva mantém 100% das ações ordinárias da subsidiária. O desenho preserva integralmente o controle societário e operacional da geradora sobre os ativos.

R$ 1,777 bicaptados junto ao Itaú Unibanco
2031–2032janela da opção de recompra (call) a critério da Eneva
100%das ações ordinárias seguem com a Eneva — controle preservado

O acordo prevê ainda uma opção de recompra (call), que a Eneva pode exercer a seu critério exclusivo entre 1º de janeiro de 2031 e 31 de dezembro de 2032 — ou seja, a companhia tem até seis anos para recomprar as preferenciais e encerrar a participação do Itaú na estrutura, caso opte por isso. A operação recebeu aprovação sem restrições do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Segundo a companhia, os recursos vão sustentar seus planos de expansão e de oferta de capacidade firme ao Sistema Interligado Nacional (SIN) — energia disponível sob demanda, atributo cada vez mais valorizado num sistema elétrico com parcela crescente de fontes intermitentes (solar e eólica). A Eneva é hoje um dos principais players brasileiros de geração térmica a gás (gas-to-wire), com usinas associadas a reservas próprias de gás natural.

Por que isso importa para o ecossistema

O formato escolhido interessa a todo o ecossistema de financiamento de infraestrutura energética. Para fundos, bancos e estruturadores financeiros, a operação é prova de conceito de que equity sem diluição de controle — preferenciais com call embutido, em vez de dívida bancária comum ou emissão de ordinárias — é caminho viável para bancar ativos de capacidade firme, tipicamente intensivos em capital e de longa maturação.

Para startups de infra-tech e fintech dedicadas à estruturação, modelagem de risco e due diligence de ativos de geração, o episódio reforça uma demanda crescente por ferramentas que sustentem esse tipo de engenharia financeira, num setor que migra cada vez mais para o mercado de capitais como fonte primária de expansão.

O que isso significa para o ecossistema de energia

  • Equity sem diluir controle — preferenciais com call, não dívida — amplia o repertório de funding para geradoras e desenvolvedores de projetos.
  • Para fundos, bancos e family offices, abre espaço de produto financeiro sob medida para ativos de capacidade firme.
  • Reforça a migração do setor elétrico para o mercado de capitais como fonte primária de financiamento da expansão.