A disputa por espaço na rede elétrica brasileira ganhou um concorrente que, até pouco tempo atrás, não fazia parte do jogo: o data center. Em 07/10, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) encerrou a 1ª Temporada de Acesso de 2026 da Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST) — e toda a margem disponível da Rede Básica em disputa, 228 MW, foi para três projetos de data center em São Paulo.
Os vencedores foram Pahlavan One, Pahlavan Three e Digital DC Brasil. A disputa competitiva, realizada em 06/10, ofertou capacidade em quatro pontos de conexão e reuniu sete empreendimentos habilitados, que somavam 451 MW de demanda — mais que o dobro da margem disponível. No ciclo completo da temporada, em todo o país, os pedidos de acesso somaram mais de 20 GW, evidenciando o tamanho da fila por capacidade de rede.
A PNAST é o mecanismo criado para alocar, de forma competitiva e transparente, a capacidade remanescente da rede de transmissão quando a demanda supera a margem disponível em um ponto de conexão. Este processo é a primeira aplicação prática do mecanismo desde sua criação — e o fato de ter sido decidido por data centers, e não por geração ou indústria tradicional, é o dado que mais chama atenção do mercado.
Potência de rede vira ativo escasso
O episódio captura um movimento maior: a disputa por megawatts para alimentar data centers deixou de ser um problema futuro para se tornar uma questão regulatória concreta e imediata, puxada pelo boom de infraestrutura de inteligência artificial e computação em nuvem. Potência de rede, antes tratada como recurso relativamente abundante no planejamento de transmissão, está se tornando um ativo escasso e disputado — com um mecanismo de mercado agora definindo quem fica com ela primeiro.
Para o ecossistema de energia, a disputa cria uma agenda de oportunidade dupla. Primeiro, para quem resolve o gargalo de potência diretamente: geração própria e PPAs renováveis para data centers, armazenamento para firmar e estabilizar essa nova carga, e soluções de eficiência e gestão de energia dimensionadas para operações de computação intensiva. Segundo, para o próprio desenho regulatório: a PNAST, ao dar previsibilidade de acesso via leilão competitivo, abre espaço para que novos projetos de geração e armazenamento se planejem em conjunto com a demanda digital, em vez de competir às cegas por capacidade de rede.
O caso paulista deve funcionar como referência para as próximas temporadas de acesso da PNAST em outras regiões do país, à medida que mais operadores de data center e provedores de nuvem buscam se conectar à rede básica brasileira — reposicionando o setor elétrico como peça central da infraestrutura da economia de IA.