Guardar o excedente de energia solar e eólica de forma barata, segura e duradoura continua sendo um dos principais gargalos da transição energética brasileira — e é também onde a maior parte da tecnologia em uso hoje ainda depende de células importadas. Uma pesquisa conduzida na Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp, pelo grupo BREnergies, propõe um caminho nacional para esse problema: uma bateria de fluxo rotativa, com pedido de patente já depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) por meio da Inova Unicamp, agência de inovação da universidade.

A tecnologia parte de um desenho que elimina componentes externos comuns em baterias de fluxo tradicionais: em vez de depender de bombas e mangueiras para circular o eletrólito, o sistema usa eletrodos cilíndricos e uma turbina integrada, o que reduz pontos de falha mecânica. O eletrólito é aquoso — uma escolha que, segundo os pesquisadores, favorece segurança e custo frente a alternativas baseadas em lítio.

~400 ciclosde carga e descarga sem aditivos (4× o similar)
98% / 82%eficiência de carga / eficiência energética
20 anosde vida útil estimada, >98% reciclável

Os resultados de laboratório divulgados pela equipe mostram ganhos relevantes de desempenho: cerca de 400 ciclos completos de carga e descarga sem uso de aditivos químicos — quatro vezes mais que o observado em sistemas similares, que giram em torno de 100 ciclos —, eficiência de carga de 98% e eficiência energética de 82%. A estimativa da equipe é de vida útil de 20 anos, com mais de 98% de reciclabilidade dos materiais ao final do ciclo. A pesquisa é fruto do doutorado de João Pedro Aguiar dos Santos, orientado pelos professores César Pagan e Hudson Zanin.

Da bancada para a propriedade intelectual

O pedido de patente é o dado que muda a natureza da notícia: deixa de ser apenas um resultado acadêmico promissor e passa a ser um ativo de propriedade intelectual com caminho formal para licenciamento, spin-off ou parceria entre universidade e empresas. Para startups de deep-tech em armazenamento e para fundos de venture capital corporativo do setor de energia — que vêm buscando ativamente alternativas de BESS —, o caso abre uma janela concreta de transferência de tecnologia e de co-desenvolvimento de uma química distinta da linha de lítio, apoiada ainda na cadeia nacional já consolidada de reciclagem de chumbo.

O momento também conversa com a agenda regulatória do armazenamento no Brasil: o leilão de baterias previsto para dezembro já sinaliza a necessidade de soluções que reduzam o curtailment de solar e eólica na rede. Uma tecnologia nacional, patenteada e com dados de desempenho publicados é, nesse contexto, exatamente o tipo de prova de conceito que aproxima a base científica brasileira da linha de frente da inovação aberta em energia.

O que isso significa para o ecossistema de energia

  • Patente depositada é o gatilho clássico de licenciamento, spin-off e parceria universidade-empresa.
  • Janela de transferência de tecnologia e co-desenvolvimento de uma química alternativa ao lítio para startups e CVCs.
  • Reforça a tese de que a próxima fronteira do BESS brasileiro inclui P&D local — não só montagem de células importadas.