Hoje, praticamente toda célula de bateria de lítio usada no Brasil — seja para armazenar energia solar, seja para movimentar um carro elétrico — vem de fora do país. Um consórcio liderado pelo instituto SENAI ISI-Eletroquímica, em parceria com o CPQD, está tentando mudar esse cenário com uma linha pré-industrial de produção de células instalada em Campinas (SP), num investimento de R$ 68,6 milhões.

O projeto reúne um time pouco comum de parceiros industriais: Petrobras, WEG, Stellantis, Volkswagen, Marcopolo, Arkema, CBA e Grupo Moura dividem o financiamento e o risco tecnológico de uma iniciativa que nenhuma delas, isoladamente, provavelmente toparia bancar sozinha. É um desenho clássico de inovação aberta — pesquisa pública, capital privado de setores diferentes (petróleo, siderurgia, autopeças, montadoras, química) e um objetivo estratégico comum: aprender a fabricar, em escala pré-industrial, uma tecnologia que hoje o país majoritariamente compra pronta.

Tecnicamente, a linha vai produzir células nos formatos cilíndrico 21700 e prismático (capacidade de aproximadamente 100 Ah), cobrindo as duas famílias de química mais relevantes do mercado atual: LFP (fosfato de ferro-lítio) e NMC (níquel-manganês-cobalto). Essa dupla cobertura não é acidental — LFP tende a dominar o armazenamento estacionário por custo e segurança, enquanto NMC segue relevante em aplicações de mobilidade que priorizam densidade energética. Ao dominar as duas rotas, o consórcio testa viabilidade para os dois principais mercados de baterias do país ao mesmo tempo.

O cronograma já está em movimento: os equipamentos vieram da China e chegaram ao país em agosto de 2026, com conclusão da planta prevista para dezembro deste ano e início de operação em 2027. Entre laboratório e fábrica em escala real, essa etapa pré-industrial é o que costuma faltar no Brasil — o ambiente onde é possível validar química, processo e célula antes de decidir se vale investir em uma planta comercial de verdade.

O timing também não é aleatório. A ANEEL marcou os primeiros leilões de armazenamento em baterias (BESS) do país para dezembro deste ano, criando demanda de mercado justamente no momento em que a linha pré-industrial de Campinas deve ficar pronta. Nacionalizar a célula deixa de ser só uma pauta de política industrial e passa a competir por um mercado concreto e com data marcada.

Para o ecossistema de inovação, a linha pré-industrial funciona como uma porta de entrada: startups, centros de pesquisa e empreendedores que hoje precisam recorrer a laboratórios fora do país para prototipar armazenamento passam a ter, potencialmente, um ambiente de validação em território nacional — infraestrutura compartilhada que reduz a barreira de entrada para quem quer inovar em baterias, e que vale atenção de investidores, aceleradoras e universidades dispostos a se posicionar cedo nessa cadeia industrial nascente.