A conta de quem vai sustentar a próxima onda de demanda de energia no Brasil começou a ficar mais clara. Enquanto distribuidoras discutem, há anos, como lidar com picos de consumo e a chegada de cargas mais pesadas à rede, o Grupo Energisa decidiu transformar esse debate em um pacote de investimento com prazo para começar a rodar.
A companhia selecionou sete projetos para testar, em clientes e na própria infraestrutura de distribuição, três tecnologias-chave da chamada flexibilidade energética: armazenamento em baterias, inteligência artificial aplicada à operação da rede e programas de resposta da demanda. O aporte total é de R$ 123 milhões — um valor que ultrapassa a fase de piloto simbólico e sinaliza intenção de escala.
A seleção é resultado do edital de inovação aberta que a Energisa lançou no início de 2026 para desenvolver o mercado de flexibilidade dentro de sua área de concessão. Cada um dos sete projetos aprovados deve gerar aprendizados operacionais e regulatórios sobre como baterias, algoritmos preditivos e mecanismos de resposta da demanda podem reduzir picos de consumo, adiar investimentos em expansão de rede e abrir espaço para conectar novas cargas — do carro elétrico ao data center — sem sobrecarregar o sistema.
Para o ecossistema de inovação em energia, o movimento importa menos pelo valor em si e mais pelo que representa: a distribuidora Energisa, uma das companhias que o Energy Hub acompanha no setor, está usando inovação aberta como porta de entrada para tecnologias que normalmente ficariam restritas a laboratórios ou provas de conceito isoladas. Isso abre um funil real de demanda para startups de armazenamento, otimização por IA e agregação de resposta da demanda — o tipo de contrato-âncora que costuma pesar na hora de uma energytech captar investimento.
O resultado dos sete pilotos deve, nos próximos meses, ajudar a definir quais tecnologias de flexibilidade avançam para escala dentro da concessão da Energisa — e, por extensão, servir de referência para outras distribuidoras que avaliam caminhos semelhantes. Para hubs de inovação, aceleradoras e fundos de venture capital voltados a energia, é um sinal concreto de que o mercado de flexibilidade deixou de ser tese e passou a ser linha orçamentária.