Nem todo recorde de crescimento é motivo só de comemoração. O levantamento mais recente sobre recarga elétrica no Brasil, divulgado pela Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) em parceria com a plataforma Tupi, traz uma ressalva que muda o centro do debate sobre eletromobilidade: multiplicar pontos de recarga deixou de ser, sozinho, a resposta para o crescimento da frota eletrificada — o gargalo migrou para dentro da rede.

Os números confirmam a expansão acelerada da infraestrutura: o Brasil está perto de atingir 29.896 pontos públicos e semipúblicos de recarga — 18.485 do tipo AC lento e 11.411 DC rápido —, um avanço de 17,4% apenas no último trimestre e de 77% em 12 meses. É um ritmo de instalação que, há poucos anos, seria difícil de prever para o país.

O dado que realmente merece atenção do setor de energia, porém, é o diagnóstico feito pelo diretor da Tupi: o principal gargalo da eletromobilidade não está mais na instalação do carregador — está antes dele, no prazo e nas condições para conectar novas cargas de alta potência à rede de distribuição. Um carregador rápido de alta potência representa, do ponto de vista da rede elétrica, uma demanda comparável à de uma pequena indústria entrando em operação — e conectá-lo exige estudos de viabilidade, reforços e prazos que nem sempre acompanham a velocidade com que o mercado quer crescer.

É exatamente esse tipo de gargalo que aproxima esta notícia da aposta em flexibilidade energética que o Grupo Energisa anunciou nesta mesma janela: os R$ 123 milhões destinados a projetos de armazenamento em baterias, inteligência artificial e resposta da demanda miram, entre outras coisas, reduzir picos de consumo e liberar espaço na rede para novas cargas — a mesma dor que agora aparece do lado da recarga veicular.

Para o ecossistema de inovação em energia, o recado é direto: a próxima fronteira de valor não está mais em multiplicar pontos de recarga, e sim em resolver o problema da conexão — armazenamento colocalizado, microrredes, softwares de gestão de conexão e programas de resposta da demanda. É um mapa relativamente claro de para onde o investimento em eletromobilidade vai precisar migrar, e de que tipo de energytech deve ganhar protagonismo nas próximas rodadas de inovação aberta das distribuidoras.